Poesia Portuguesa

Poemas em Português



Poema Barganha

Domingo é dia de barganha.
Troco um relógio dos antigos
por um cavalo rosilho,
um bode por um trinca-ferro,
e uma roda de cabriolé
por um radinho de pilha.
Troco um gibão de cigano
pela serra que serrou
o tronco mais odorante
e por um fogão de lenha
troco um cachorro de caça
e uma panela de cobre.
Troco toda a luz do sol
pela sombra de um só pássaro.
Por uma espingarda troco
um tacho que foi de escravos
além de um almofariz
e uma xícara sem asa.
Troco a salmoura dos peixes
por qualquer gosto de lágrima.
Pela vitrola rachada
dou a minha bicicleta
com os pneus arriados.
Troco o entulho que restou
do muro que derrubei
pelo calor da fogueira
que por uma noite apenas
negou o frio dos pobres.
Troco um lençol de noivado
e uma toalha bordada
pela sua reflectida
na escuridão das cisternas.
Troco o meu selim de couro
por um arreio de prata.
Dou um caminhão de pedra
por um portão de peroba.
Na tabuada do mundo
troco o número um
pelo número dois.
E troco o bolor do dia
pelo silêncio guardado
na boca aberta dos doidos.
Troco a alvorada dos galos
pelo rumor dos reis mouros
que passam com seus vassalos
pelas antigas muralhas
rubras de tantas batalhas.
Também troco uma tigela
feita de barro da terra
por um jarro e uma gamela.
Barganho a chuva celeste
pela água negra da terra
e troco a nuvem que passa
por tudo o que for eterno.
Só a minha alma é inegociável.
Não a dou por dinheiro nenhum.

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Poema Barganha - Lêdo Ivo