Poesia Portuguesa

Poemas em Português



Poema Elegia

Vae em seis mezes que deixei a minha terra
E tu ficaste lá, mettida n’uma serra,
Boa velhinha! que eras mais uma criança…
Mas, tão longe de ti, n’este Payz de França,
Onde mal viste, então, que eu viesse parar,
Vejo-te, quanta vez! por esta sala a andar…
Bates. Entreabres de mansinho a minha porta.
Virás tratar de mim, ainda depois de morta?
Vens de tão longe! E fazes, só, essa jornada!
Ajuda-te o bordão que te empresta uma fada.
Altas horas, emquanto o bom coveiro dorme,
Escapas-teãda cova e vens, Bondade enorme!
Atravez do Marão que a lua-cheia banha,
Atravessas, sorrindo, a mysteriosa Hespanha,
Perguntas ao pastor que anda guardando o gado,
(E as fontes cantam e o céu é todo estrellado…)
Para que banda fica a França, e elle, a apontar,
Diz: “Vá seguindo sempre a minha estrella, no Ar!”
E ha-de ficar scismando, ao ver-te assim, velhinha,
Que és tu a Virgem disfarçada em probrezinha…
Mas tu, sorrindo sempre, olhando sempre os céus,
Deixando atraz de ti, os negros Pyrineus,
Sob os quaes rola a humanidade, nos Expressos,
Em certo dia ao fim de tantos (conto-os, meço-os!)
Vindo de villa em villa, e mais de serra em serra,
Chegas!
E cae e cae no soalho alguma terra:
Tua cova que vem pegada aos teus vestidos!

Ó lua do ceguinho! Amparo dos vencidos!
Alpendre do perdão! ó Piedade! ó Clemencia!
Singular fado o nosso, estranha coincidencia:
Deixamos nossa Patria ao mesmo tempo: tu,
Adentro d’um caixão, que era tambem bahu,
Onde levavas as desgraças d’esta vida;
Eu, n’um paquete sobre a vaga enraivecida
(Sob a qual, entretanto, havia a paz das loizas)
E n’elle o esquife do meu lar, as minhas coizas,
E mais tu sabes, Santa! um sacco de mizerias!
Mas a existencia, é um dia, esta vida são férias
E, mal acabem, te verei de novo… em breve!
E tu de novo me verás…
Ah! como deve
Ser frio esse teu lar de debaixo da terra
Que teu cadaver de oiro ainda intacto encerra:
Ainda intacto e sempre: disse-me o coveiro
Que a tua cova era a unica sem cheiro…
E assim te deixo, Santa! Santa! ao abandono,
Só, aos cuidados das corujas e do Outomno!
Com este frio, horror! Senhora da Piedade!
Sem uma mão amiga e cheia de bondade
Que te agazalhe e faça a dobra do lençol,
Que abra a janella para tu veres o sol,
Que, logo de manhã, venha trazer-te o leite
E, á noite, a lamparina-esmalte com azeite!
Sem uma voz que vá ao pé da tua loiza,
Ancioza, perguntar se queres alguma coiza,
Cobrir-te, dar-te as boas-noites… Sem ninguem!
Ai de ti! ai de ti! minha segunda Mãe!

Dobra era meu coração o sino da saudade…

Aqui, no meio d’esta fria soledade,
Evoco a Coimbra triste, em seu aspecto moiro:
Entro, chapéu na mão, em tua Caza d’Oiro,
Em frente a um cannavial, cheio de rouxinoes,
Que era nervozo de mysterio, ao por-dos-soes…
Vejo o teu lar e a ti, tão pura, tão singella,
E vejo-te a sorrir, e vejo-te, á janella,
Quando eu seguia para as aulas, manhã cedo,
Ancioza, olhando d’entre as folhas do arvoredo,
Olhando sempre até eu me sumir, a olhar,
Que ás vezes não me fosse um carro atropelar.
Vejo o meu quarto de dormir, todo caiado,
D’onde ouvia arrulhar as pombas, no telhado;
Oiço o relogio a dar as horas vagamente,
Devagar, devagar, como os ais d’um doente…
Vejo-te, á noite, pelas noites de Janeiro,
Na sala a trabalhar, á luz do candieiro,
Mais vejo o Emilio, indo a tactear, quasi sem vista,
Mas que lembrava com seus olhos de ametysta,
Meio cerrados, como ao sol uma janella,
Que lindos olhos! uma pomba de Ramella!
E andava á solta pela caza, não fugia,
Que aos libres ares o cazulo preferia…
Mais vejo Aquella, cujo olhar são pyrilampos,
Que tem o nome da mais linda flor dos campos,
Que tem o nome que tiveste… Vejo-a, ainda,
Como se hontem fosse, a Margareth, tão linda:
Vejo-a passar, sorrindo, e faz-me assim lembrar
No seu vestido rubro, uma papoila a andar…
Mais te vejo ainda ungir d’affagos minhas penas,
Mais te vejo voltar, á tarde, das novenas…
Mais oiço os sinos a dobrar, em Santa Clara,
E tu encommendando a alminha que voara…
Mais vejo os meus contemporaneos, pela Estrada,
As capas destraçando, ao verem-te á saccada;
Mais vejo o Ruy, na sua farda de artilheiro,
E tu mirando-o (o que são mães!) o dia inteiro!
Mais vejo o sol, aurea cabeça do Senhor,
Mais vejo os cravos, notas de clarim em flor!
Mais vejo no quintal as papoilas vermelhas,
Mais vejo o lar das andorinhas, sob as telhas,
Mais oiço o tanque a soluçar soluços d’agoa,
Mais oiço as rãs, coaxando á noite a sua magoa,
Mais vejo o figueiral todo cheio de figos,
Mais vejo a tua mão a dal-os aos mendigos…
Mais oiço os guizos, ao passar da mala-posta,
Mais vejo a sala de jantar, a meza-posta,
E tu, Senhora! prezidindo, á cabeceira.
E (o que a distancia faz!) vejo-te na cadeira,
Com uma touca preta a cobrir-te os cabellos,
Que eram de neve, aos caracoes, estou a vel-os!
(Hei-de ir cortar-t’os, alta noite, ao cemiterio…)
Mais vejo o Vasco sempre triste, sempre serio,
D’um lado e eu de outro…

Que abençoado refeitorio!

Mas tudo passa n’este mundo tranzitorio!
E tudo passa e tudo fica! A Vida é assim
E sel-o-á sempre pelos seculos sem fim!
Ainda vejo a tua caza, e oiço os teus gritos
(Mas nas janellas e na porta vejo escriptos!)
O Vasco é ainda sempre triste, sempre serio
(Mas sua caza, agora, é ao pé d’um cemiterio…)
Meu quarto de dormir vejo-o no mesmo estado
(Mas não sei que é, não me parece tão caiado.)
A janella ainda tem o mesmo parapeito
(Mas já não sou “o estudantinho de Direito”.)
Na sala de jantar ainda se estende a meza
(Mas já não tem a meza-posta, a sobremeza.)
Vejo o relogio na parede como outrora
(Mas o ponteiro marca ainda a mesma hora…)
O candieiro ainda tem o petroleo e a torcida
(Mas apagou-se a luz a quando a tua vida.)
A diligencia passa, á tardinha, a tinir,
(Mas já não tem os olhos teus para a seguir…)
Passam ainda pela Estrada os estudantes
(Mas não destraçam suas capas, como d’antes…)
Vêm da novena ainda as moças e as donzellas
(Mas procuro-te, em vão, já não te vejo entre ellas…)
As andorinhas ainda têm o mesmo fito
(Mas já fizeram trez jornadas ao Egypto…)
Ainda dobra por defuntos e defuntas
(Mas não te vejo a ti a rezar de mãos juntas.)
Ainda lá está o figueiral com figos,
(Mas não a tua mão a dal-os aos mendigos…)
O Ruy ainda traz a farda de soldado
(Mas, agora, já poe mais divizas, ao lado.)
As rãs coaxam ainda á noite, á beira d’agoa
(Mas, já não têm quem peça a Deus por essa magoa.)
O Emilio tem ainda esse olhar que maravilha,
(Mas, com seus olhos d’hoje, é uma pombinha da Ilha)
Ainda lá estão os cravos, no jardim,
(Mas já não são as mesmas notas de clarim…)
Ainda oiço o tanque a soluçar a sua magoa
(Mas já não acho tão branquinha a sua agoa…)
A Margareth ainda é a papoila de outrora
(Mas a papoila… já está uma senhora!)
Ainda lá estão as papoilas em flor
(Mas a velhinha já não vae de regador…)
Meu coração é ainda o Valle de Gangrenas
(Mas já não tenho quem lhe plante as açucenas…)
Vive ainda o Sol, vivo eu ainda… (Mas tu morreste!)
Tudo ficou, tudo passou…

Que mundo este!


Poema Elegia - António Nobre