Poesia Portuguesa

Poemas em Português



Poema Mãe

Intacta como o silêncio. Terra
Na terra, dela te alimentas e, serena,
A adubas, como orvalho às manhãs.
Fantasma de ti, não; e, como espírito, ardes
Por entre. Ciprestes e ventos. E sóis e
Noites. Mas ardes. E falas. Fétida mi –
Neração de ossos translúcidos
Do azul que me legaste
Ao descer-te as pálpebras na hora verdadeira.
Intacta como os ventos que não vieram
E aguardam a hora de soltar-se.
Intacta por sob. Mas intacta. Pura,
De terra e de sonho. Não sa-u-d-a –
De nem fantasma, não. Alegria.
Como o ser. Como a ladainha que te cantei, tu sabes

Quando. ALEGRIA. Como quando os olhos
Não sabiam de lágrimas. Ou sabiam,
Como se não existissem senão para.
Saber-te lá onde és (aqui, tão pertinho,
Onde o teu sopro se fechou… ) Alegria
Ainda e sempre… Intacta. Casta toda
Como os mármores que não quis a emoldurar
Teu corpo de terra. Casta como os ventos.
Ardência solar da meia-tarde de cada dia,
Claridade que me nasces no “bom-dia”
Que nos damos, por sob o sol e a chuva
Das horas e dos dias. Verdes campos de verdes ciprestes
Se-nos-entrelaçam no quotidiano existir.
Porque te sei. Como os ventos sopram. O espírito arde.
Como, não? Verdes agulhas de verdes ciprestes
Sinalizam o absoluto.

Num envelope de terra, pura e intacta, jazes.

(Primeiro aniversário da tua vida, agora.)


Poema Mãe - Vasco Miranda
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