Poesia Portuguesa

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Poema A um Nariz Grande

Hoje espero, nariz, de te assoar,
Se para te chegar a mão me dás,
Ainda que impossível se me faz
Chegar a tanto eu como assoar-te,
Porque é chegar às nuvens o chegar-te.
Das musas a que for mais nariguda
Manda-lhe que me acuda,
Que se a fonte
De Pégaso é verdade está no monte,
O mais alto de todos em ti está
Porque monte tão alto não no há.

Falta o saber, nariz, para o louvor
De que és merecedor.
Que hei-de dizer?
Para espantares tu hão-te de ver,
Porque nunca se pode dizer tanto
Que faça como tu tão grande espanto.
És tão grande, nariz, que há opiniões,
E prova-o com razões
Certo moderno,
Que em comprimento és, nariz, eterno,
Porque ainda que princípio te soubemos,
Notícia de teu fim nunca tivemos.

Cuido que sem narizes, por mostrar
Seu poder em acabar,
Sua grandeza,
Deixou gente sem conto a natureza,
Que assoas, Gabriel, quando te assoas,
Os narizes de mais de mil pessoas.

Aos mais narizes dás o ser que tem,
Nariz, e daqui vem
Que os nossos são
Os narizes em que há mor perfeição;
Que se os negros os tem esborrachados,
É porque estão em ti mais apartados.
Dos narizes todos é sabido
Terem um só sentido,
E é assi;
Mas em h, como corpo de per si,
Cinco sentidos há quem em conclusão,
És nariz que tem uso de razão.

E ainda que espante tanto nesta idade
Que por monstruosidade
Sejas tido,
Nariz, a muita gente tenho ouvido
Que ainda hás-de espantar mais na que há-de vir,
Porque ainda há muito em h por descobrir.

Vai-te, canção, e diz a este nariz
Que eu sou o que te hz.
E para lho dizeres
Daqui donde estás podes, se quiseres;
Não tens necessidade de abalar-te,
Porque este nariz está em toda a parte.


Poema A um Nariz Grande - Tomás Noronha