Poesia Portuguesa

Poemas em Português



Poema Os Amantes

Amor, é falso o que dizes;
Teu bom rosto é contrafeito;
Busca novos infelizes
Que eu inda trago no peito
Mui frescas as cicatrizes;

O teu meu é mel azedo,
Não creio em teu gasalhado,
Mostras-me em vão rosto ledo;
Já estou muito escaldado,
Já d’águas frias hei medo.

Teus prémios são pranto e dor;
Choro os mal gastados anos
Em que servi tal senhor,
Mas tirei dos teus enganos
O sair bom pregador.

Fartei-te assaz a vontade;
Em vãos suspiros e queixas
Me levaste a mocidade,
E nem ao menos me deixas
Os restos da curta idade?

És como os cães esfaimados
Que, comendo os troncos quentes
Por destro negro esfolados,
Levam nos ávidos dentes
Os ossos ensanguentados.

Bem vejo a aljava dourada
Os ombros nus adornar-te;
Amigo, muda de estrada,
Põe a mira em outra parte
Que daqui não tiras nada.

Busca algum fofo morgado
Que, solto já dos tutores,
Ao domingo penteado,
Vá dizendo à toa amores
Pelas pias encostado;

Que em sisuda casa honrada,
De papéis nunca avarento,
Dá com mão refalseada
Escritos de casamento,
Ora à filha, ora à criada.

Genealógico comprado
Lhe concede a peso d’ouro,
Em castelo imaginado,
Cabeça de fusco mouro
Sobre escudo golpeado.

Árvores de geração
Em pergaminho enrolado
Provas inegáveis são;
É um ramo desgraçado
De antigos reis de Aragão.

Dando ao mochila o lazão,
De Fílis a escada emboca,
Sempre em ar de protecção,
Alvo palito na boca,
Lisa varinha na mão;

Zomba de falsos brasões
Que não são no berço achados
E diz à moça as razões
De ter no teliz bordados
Dois cães e quinze leões;

As histórias lhe declara
Daquelas guerras felizes
E mostra, com mão avara,
Os ossos de dez narizes
Que seu quinto avô cortara.

Aturde a moça boçal
Com cem quintas, cem comendas;
E armando um mapa geral
Das suas imensas rendas,
Vai-se sem lhe dar real.

Mas se a teus farpões dourados
Não achas digno consumo
E os julgas mal empregados
Nestas cabeças de fumo,
Nestes peitos altanados,

Busca algum novel basbaque,
Que por pobre não saía,
Mas já mete o bairro a saque
Depois que engenhosa tia
Lhe armou duma saia um fraque;

Que, gravezinho, namora
Com brando e risonho aspeito,
Ponta de lenço de fora,
Molho de flores no peito,
Prenda de certa senhora.

Que um trapo a seu jeito ordena,
Temendo o pó das calçadas;
E antes de entrar na novena,
Com cuspo, pelas escadas,
Vai dando aos sapatos crena.

De gelo as pedras cobertas,
Como às vezes me fizeste,
Alta noite e a horas certas,
Quando o áspero nordeste
Deixou as ruas desertas;

Ouça duros assobios,
Precursores de alto insulto,
Retalhem-no ventos frios,
Ladrem ao postado vulto
Cem nocturnos cães vadios;

De paisanos salteado,
Ronda sem fé e sem lei,
De espadas velhas cercado,
E ao som da parte d’el-rei
Por força desembuçado,

Membrudo cabo vermelho
O apalpe ante os mais senhores;
Acha uma escova, um espelho,
Dezoito escritos de amores
E um pescocinho velho.

Firam teus acesos raios
Também na gentalha vil,
De crestados peitos baios,
Que começando em barril,
Vão por aumento a lacaios;

Busca algum que da cocheira,
Quando o patrão não sai fora,
Com os olhos na trapeira,
Limpando a sege, namora
Desgrenhada cozinheira;

Que de noite à sua porta,
Com famosos tangedouros
Que o Talaveiras conforta,
Lhe manda ternos amores
Sobre as asas da Comporta;

A quem a suja donzela,
Por almoço do costume,
Manda em sórdida tigela
O primitivo chorume
Da desflorada panela.

E se te não satisfazes
Com tanta conquista brava
Que nesta canalha fazes,
E ainda a funesta aljava
Pejada de setas trazes,

Não tens velhas presumidas
Que em fim de mês fingem dores
Só às moças concedidas?
E têm de compradas cores
As chochas faces tingidas;

Cuja boca pestilenta
Ante um espelho ensaiada,
Torcendo-se destramente,
Aprende a abrir a risada
Por onde inda resta um dente;

Que há sessenta anos donzelas
(caso raras vezes visto)
Têm títulos de capelas
Com um hábito de Cristo
Para quem casar com elas?

Busca alguma de bom caco
Que, pela fenda da saia
Marinhando o braço fraco,
Fisga o lenço de cambraia
Afastando o de tabaco;

Que em festival sociedade
Até o rapé reprova,
Chamando-lhe porquidade,
E vai fartar-se na alcova
De simonte e de cidade.

Amor, faze estas em postas,
Vai-lhe das lágrimas rindo
Já que de lágrimas gostas,
E não andes perseguindo
A quem te virou as costas.

Porém se da plebe escura
Em pouco o triunfo prezas
E queres fina ternura,
Extremos, delicadeza,
Os freiráticos procura;

Gentes de mais alta esteira,
Ternos, finos corações,
Que em fechada papeleira
Vão guardando em batalhões
As cartas da sua freira;

Em chegando a condutora
Que os sacrilégios ateia,
Um destes de gosto chora,
Lambe com respeito a obreia
Por ter cuspo da senhora;

Posto na insípida grade,
Em almíscar perfumado,
Todo amor, todo saudade,
Comendo em doce babado
Os sobejos de algum frade;

Ao sublime estilo guinda
Sua discrição notória,
A que logo a freira linda,
Revolvendo na memória
Os dois livros de Florinda,

Responde: “Os conceitos sigam
Os holocaustos do altar;
Pois são, e as chamas o digam,
Pedir, quem pode mandar,
Preceitos que mais obrigam”.

Entretanto um chantre velho,
A quem a rodeira engoda
E que em fechando o Evangelho,
Vai meter dentro da roda
O seu cachaço vermelho,

Freirático por fadário,
Tão guloso como amante,
Condessinhas pelo armário,
E sobre a deserta estante
Manjar branco e o breviário,

Que em podre filosofia,
Sectário da antiga lei,
Os Universais sabia
E armado do a parte rei,
Tudo a eito distinguia,

Arranca oleoso escarro,
Diz à rodeira um conceito,
Daqueles que já têm sarro,
Mete os óculos no peito,
Trono de amor e catarro.

Pois já que estes peitos vão
Franca entrada oferecer-te,
Amor, carrega-lhe a mão;
Aprendam a conhecer-te, Mas
paguem caro a lição;

Mete num cárcere a dama,
Do bom chantre os calcanhares
Vão curtir gota na cama
E o secular cruze os mares
Que foi descobrir o Gama.

E se queres empregar
As tuas setas de prova,
Quando alva lua raiar,
Vai sobre a Ribeira Nova
As asas equilibrar.

Brancos vestidos tomados,
Descobrindo as saias altas,
Entre as nuvens os toucados,
E com esbeltos paraltas
Os braços entrelaçados;

Verás ser aceito logo
Teu riso enganoso e brando;
Não esperam por teu rogo,
E em tu do alto assoprando
Verás chamejar o fogo;

Que alvos dedos delicados
A furto se vão beijando
Enquanto os pais descuidados,
A loja nova admirando,
Pararam embasbacados.

Verás sisudo estrangeiro
Contando grossos tostões
Ao refinado brejeiro,
Correio de corações
Que se compram por dinheiro;

Verás moça rebuçada,
Na cabeça lenço sujo,
Roupinha desatacada,
Recebendo do marujo
Um copo de limonada.

E enquanto escuto os gemidos
Que arrancas de tantos seios,
Deixa que em montes erguidos
Veja os naufrágios alheios
Enxugando os meus vestidos.

Se até nos teus estimados
Ervadas setas se embebem,
Se do teu riso enganados
Com bocas sedentas bebem
Veneno em vasos dourados,

Vão pé ante pé guiados
Por peitada cozinheira,
Mas, vendo os pais levantados,
Dentro de enrolada esteira
Ficam num canto encostados.

Quando alta noite sussurra
Rijo, sibilante vento
Que as grossas portas empurra,
E acorda o velho avarento
Com os cuidados na burra,

Deixando a cama ligeiro,
Corre portas e janelas,
Registando o quarto inteiro
Em roupão e em chinelas,
Com pistola e candeeiro;

Que tremor de coração,
Que semblantes enfiados
Os amantes não terão
Que, cos colos levantados,
Ouvindo o rumor estão?

Da janela debruçada
Desenvolve degraus falsos
Pálida dama assustada,
Os mimosos pés descalços,
A madeixa ao vento dada.

Pois se estes teus escolhidos,
Por cabedais, por figura,
Das Nises favorecidos,
Maldizem sua ventura
E saem arrependidos;

Como hei-de eu crer-te, que apenas
Vi de longe tranças de ouro?
Debalde outro engano ordenas
A quem de teu vão tesouro
Nunca teve mais que penas;

Do teu rol meu nome risca;
Em peito inda não cortado
Cevados anzóis arrisca,
Mas com peixe já sangrado
Não gastes a tua isca.

De meu pranto rociadas
Penduro as fatais cadeias,
Ao som de meus ais forjadas;
Arranco das rotas veias
Cruas setas despontadas.

Sangue inocente esparziram;
Mais à ideia me não tragas
Uns olhos que enxutos viram
Estas desgraçadas chagas
Que em teu serviço se abriram.

Dei-te os cuidados e os dias,
De tudo já foste dono,
Restam só melancolias.
Que glória te dá um trono
Posto sobre cinzas frias?

Teus golpes, de mim, que esperam?
Dá folga aos escravos mancos
Que em teu carro entorpeceram;
Deixa em paz cabelos brancos
Que entre os teus ferros nasceram.


Poema Os Amantes - Nicolau Tolentino