Poesia Portuguesa

Poemas em Português



Poema O Câmbio do Amor

Amor, qualquer outro diabo que não tu
Daria, por uma alma, algo em troca.
Na Corte, teus colegas, todos os dias,
Dão a arte da rima, da caça, ou do jogo,
Por aquelas que antes a si se pertenciam;
Somente eu, o que mais dei, nada tenho,
Mas – infeliz – por ser mais vil, sou aviltado.

Não peço agora permissão
Para fingir uma lágrima, suspiro, jura;
Não te solicito para que obtenhas
Um Non obstante sobre a lei natural;
Estas são prerrogativas inerentes
A ti e aos teus; ninguém as deverá abjurar
A não ser que fosse servo do Amor.

Dá-me a tua fraqueza, faz-me duplamente cego
Como tu e os teus, de olhos e mente.
Amor, nunca me deixes saber que isto
É amor, ou que o amor é pueril;
Não me deixes saber que outros sabem
Que ela sabe de minha dor: que essa terna afronta
Me não torne em minha própria nova dor.

Mesmo se tu nada deres, ainda assim és justo,
Porque não confiei nos teus primeiros sinais;
As vilas que resistem até que forte artilharia
As sujeitem, pela lei da guerra não impõem condições.
Igual é o meu caso na guerra do amor,
Não posso negociar o perdão após
Ter obrigado o amor a mostrar a sua face.

Esta face, pela qual ele podia dominar
E mudar a idolatria de qualquer terra;
Esta face que, onde quer que chegue,
Retira frades dos claustros, mortos das tumbas,
E pode fundir ambos os pólos de uma vez, abastecer
Desertos com cidades, e abrir mais
Minas na terra do que pedreiras já existem.

Por isso, Amor está irado comigo,
Mas não me mata. Se exemplo devo ser
Para futuros rebeldes; se os por nascer
Devem aprender com o retalhar e despedaçar de mim:
Mata-me e disseca-me, Amor, porque esta
Tortura vai contra teus próprios fins, –
Carcaças supliciadas não servem para anatomia.


Poema O Câmbio do Amor - John Donne